domingo, 23 de setembro de 2012

ALZHEIMER

À noite, Joana subiu ao alto da montanha para ver a cidade. Uma metrópole iluminada cujos limites desapareciam no infinito. Aos poucos vão se apagando algumas luzes. Umas aqui, outras acolá. A cidade vai perdendo seu brilho. Sua luminosidade vai decrescendo. Ninguém ficou por último para apagar a última luz. Joana dormiu seu último sonho.

quinta-feira, 22 de março de 2012

DECIFRANDO

Para uns a vida é tudo.
Para outros a vida é nada.
Alguns a decifram com uma lupa.
Outros se debruçam sobre uma pequenina janela.
Uns se vestem de luto, para ver a tristeza passar.
Outros se dobram sobre a melancolia para ver o outro lado dela.
Existem os que dão uma risada, por pouca coisa ou quase nada.
Mas há quem tenta existir e anda a chorar e a sorrir.
Existem os que sorriem sem sorrir e choram sem chorar.
Há o que sorri por dentro e por fora e assim também chora.
Há os que dão adeus muito antes de partir.
Há os que partem sem nunca ter ido embora.

sábado, 17 de março de 2012

POEMA AO ABSOLUTO

A Realidade Última,
o Supremo Absoluto,
o Profundo Mistério,
quando bateu em mim,
no lago de minha alma,
assim como as pedras
atiradas pelos meninos
nas tardes domingueiras
(todas as tardes são
vestidas de domingo, quando
se é menino),
fazem ondas do centro à
periferia,
o toque do Eterno emanou pétalas
que se abriram continuamente,
como a luz do mais belo dia,
e vão se abrindo à medida
que avanço em Sua direção,
na mesma sinfonia;
quando mais me aproximo,
mais se distancia,
e nisto está Sua grandeza
infinita... buscá-LO por toda a vida,
é mais importante que encontrá-LO,
pois ELE em contínua expansão
vai reflorindo a sua própria
permanência,
e no meu esforço consecutivo
eu percebo a SUA PRESENÇA.

sábado, 21 de janeiro de 2012

EIN SOFT

Adentro pelas salas do casarão
da poesia, para ser mais simples.
Para não ter a necessidade de dar
o outro lado da face, pura hipocrisia.
Possso virar-me ao avesso à vontade.
Em vez de assumir-me como humanidade,
eu sou apenas o passar dos dias.
Em vez de misturar-me ou unir-me ao universo,
visto a forma imperceptivel dos números.
No lugar dos discursos megalomaníacos,
revivo a unidade das humildes sílabas.
Ante o esplendor dos mistérios, não
avanço além dos signos.
Diante do espetáculo divino, me contento
em brincar com os mitos.
Pois, em verdade, em verdade vos digo,
que os dias passam e não passam,
enquanto as coisas transpassam a si mesmas.
Os números fingem ir ao infinito e não
há mentes que os captam.
As sílabas se contraem quando se expoem,
mas se diluem sem ser notadas.
Os signos reluzem enquanto se escondem
sob seus sóis.
Os mitos perduram sem ranger seus ossos.
Tenho consciêcia que os dias não contam
seus dias;
os números nunca ultrapassam os onze e
retornam ao nada, para ganhar fôlego em
sua expansão;
as sílabas se juntam sem egoísmo para
compor a sinfonia da linguagem;
os signos não se escondem em lugar algum
e não caem na ilusão do espaço e do tempo;
os mitos tecem os seus berços com as fibras
das essências originais.
Por isto, todos eles são os únicos que permanecem!
É por isto também que habito o casarão da poesia!

sábado, 7 de janeiro de 2012

SHABAT SHALOM! SHEMA YISRAEL: BARUCH ATTA ADONAI, ADONAI ELOHÊINU, ADONAI ECHAD!

Buscamos sempre nossas
partes esparzidas,
mesmo que percorramos
várias vidas,
havemos de nos encontrar
além das entrelinhas,
no final de cada estação,
sobre os dormentes dos trilhos,
no dorso das estradas erguidas,
atrás das janelas fechadas
hermeticamente banidas,
das portas seguramente trancadas
com travas enrijecidas,
mesmo que tenhamos que andar,
com nossas almas às escondidas,
nos cantos, canções, versos
dos encatados poetas,
pois somos herdeiros dos salmistas,
cantaremos sobre as muralhas caidas,
haveremos sempre de nos encontrar,
enquanto os encontros sejam erguidos
por tradições e histórias seletas,
nossos momentos estão escritos,
nas estrelas mais distantes do infinito.
Shabat Shalom!

sábado, 31 de dezembro de 2011

PROMETO NÃO PROMETER NADA PARA O ANO QUE VEM

Neste final de ano, prometo não prometer nada.
Não tenho nenhuma intenção idiota de emagrecer, pois não serei um dançarino da chuva, daqueles que bailam se desviando dos pingos que surradamente lhe caem sobre a cabeça, sem dó nem piedade.
Não pretendo pedir desculpas a torto e a direito, ao ponto de sair por aí cambaleando de tanto tomar cacetadas pelos ombros e ainda ter a docilidade infantil, ingênua e piegas, quiçá religosa, de desculpar-se.... por sinal não inventei o mata borrão das culpas. Nada de ser imbecil. De sofrer pela acusação da qual estou mergulhado na banheira da inocência. Isto só faz realimentar a lareira dos sádicos e como num jogo de dominó expandir a dor a outrem.
Também não tenho nenhuma vontade de distribuir milhares de perdões e pedidos implorados de perdão. Não nasci deus, porque não me deram nenhuma escolha graças a Deus.
Por favor não me mandem estas banalidades escritas em letras de purpurina de que tudo vai ser diferente. Aprendam que a diferença está debaixo de nossos narizes. Peço que não me analisem como masoquista. Pelo contrário, a verdadeira alegria de viver está neste momento único da existência, que é esta presença permanente diante de si, de todos e de tudo.
Não tenho a mínima intenção de ser mais pontual do que sou. Não quero ir além da precisão do quartzo e nem da cordial pontualidade inglesa. Nem da memória do silício, que revolucionou o mundo sendo apenas um mineral. Não quero copiar ninguém. Não sou simulacro de outrem. Não nasci para riscar na areia a sombra que não me pertence.
Não serei mais sábio. Pelo contrário, esvaziarei ao máximo que puder. Quem sabe quanto menos souber, mais perto estará da simplicidade. Também não prometo ser mais simples do que sou. Isto é cafonice, para não dizer idiotice ou pieguice no seu mais real sentido.
Não faço nenhuma promessa para o próximo ano que será daqui a pouco e que não é tão próximo assim, porque nada é estático no tempo e nenhuma coisa está lá na frente à nossa espera; quando o que temos realmente é este instante que acaba de escapar pela fresta do tempo.
Não engolirei sapos. Não sou cobra. Nem acredito na esperteza delas. Guardo comigo apenas a figura mítica, o recado de seu trajeto kundalínico e que o resto vá plantar batatas, se quiser.
Não virei com este discurso idiota de um mundo melhor. "Eu desejo um mundo melhor para todos vocês!" Ah! Meu Deus, me afaste desta maneirice de final de ano. Faça-me que seja simplesmente como sou, assim mesmo. Deste jeito está bom demais. Não nasci para touradas um ano e acender as luzes de um clausuro instantâneo numa virada de trinta e um para primeiro, como um santo louco nascido à revelia.
Caso participe de algum jantar que eu não faça dele uma festa de gala. Não, de forma nenhuma. Não poderei me perder na correnteza dos que se subjugam aos ditames midiáticos. Não deixarei de contemplar cada gole de água bebido em copos simples no dia a dia. Não perderei a magnificiência dos grãos cotidianos dando-me neurônimos, sangue, músculos, pensamentos pela leveza de cada pão nosso diário.
Prometo não ter alegria ao extremo. Melhor andar o caminho às vessas do que percorrê-lo como um almofadinha. Darei os mesmos sorrisos pelo meio do caminho, de onde posso avaliar as suas margens.
Nem inclusive irei admirar os festivais de fogos com dinheiro gasto que daria para abastecer mil creches em um ano. Não entrarei nesta jogada. Continuarei pela contemplação permanente de tudo que há em meu redor, do milagre infinito da existência.
Deixem que me chamem de louco, imbecil, visionário, desde que eu continue a amar tudo que é belo na natureza.
Para que prometer tantas coisas inúteis, sendo que há tantas outras úteis e maravilhosas para serem feitas simplesmente por fazer! Continuarei a correr atrás das borboletas, mesmo depois de uma certa idade.
Não posso desviar do meu caminho e ficar nesta imbecilidade de todos. Posso correr o risco de não olhar mais para aquela estrela vespertina e piscar os olhos para ela, numa atitude de Carlitos.
Por isto não prometo nada a ninguém. Não cairei de forma alguma neste redemoinho popular de babaquices e trocas de figurinhas. Continuarei a admirar o horizonte ao entardecer. Ficarei na minha. Não farei acenos nem jogarei beijinhos doces para ninguém. Não sou como aquelas pessoas que ficam jogando beijos para as criancinhas nos braços de suas mamães, como num exercício involuntário de desfiar-se da vida ou desfazer-se da realidade, tentando insensatamente estender uma ponte ao que é mais novo.
Todos os seres humanos são lindos e maravilhosos desde as crianças até aos mais avançados em anos. Por que me arriscar a perder a grandeza deste exato momento e vender uma ilusão de que daqui a pouco será muito mais maravilhoso?
Se prometer muito não andarei mais de sandálias de dedos com a camisa solta sobre a calça, sentindo a leveza do vento tocar em minha face. Não prometo nada a ninguém neste final de ano. Não vou entrar nesta onda. Alguém dirá com certeza: "mas isto já é prometer!" O que me importa esta crítica cega dita de baixo para cima de um ser humano que vive de ponta cabeça! Agora mesmo escutei o chiar noturno de uma coruja.

domingo, 30 de outubro de 2011

ABRAÃO, NOSSO PAI E COMO SUPERAR A ANGÚSTIA EXISTENCIAL

Quando eu estava com aproximadamente dezesseis anos, minha avó me deu uma grande lição. Naquele momento ela passava para mim a sua herança. Ela me disse sobre uma ensinança divina aprendida com meu bisavô. Estava escrito num livro escondido a sete voltas numa toalha dentro de um baú. Revelou-me sermos filhos de Abraão. Portanto, tínhamos uma grande herança, até a nossa última geração. Ensinou-me a agir diante de um grande problema vivencial para ser solucionado. Aconselhou-me a recorrer aos grandes personagens das escrituras sagradas. Neles encontraria exemplo e amparo para as minhas angústias pessoais.
Ontem recebi uma mensagem interessantíssima. Ele se refere ao nosso Pai Abraão e Sara. Como Sara era estéril e Abraão queria um filho, com certeza isto tornou um problema existencial para o nosso querido Pai. Sendo ele monoteísta e um devoto ardente do Eterno, consultou-O, tendo a seguinte resposta: "Olha para os céus e conta as estrelas, se podes contá-las. Assim será tua semente. E acreditou Abraão no Eterno, e isto foi considerado como mérito." Gênesis 15:5
Portanto meus leitores, em resumo, o segredo está em olhar por cima das estrelas. Olhem por cima das estrelas em quaisquer situações de suas existências. Verão como a amplidão de suas percepções deixará em migalhas as situações mais difíceis dos seus desertos. Nós estamos mergulhados no mundo, na multiplicidade de pessoas e de problemas, mas ao olharmos por sobre as estrelas, veremos a falta de sentido em se deixar levar pelas mesquinhezas desta vida. Elas não merecem a nossa mínima atenção. Quem tem fé no Eterno, mesmo diante de um monte de problemas, ele diz: Monte sai deste lugar. Retira-te de dentro de mim! E a luz da Torá brilhará como um sol precioso dentro da pureza de sua alma.

domingo, 2 de outubro de 2011

ARTE: PODER ESPIRITURAL!

Uma cabeça
sem arte
é uma cidade
vazia.
Dela só resta
a parte
do faroeste,
da fresta do
velho oeste,
se abrindo
na ventania.
O que escapa
da arte é o
mistério.
O mundo escondido
por trás da
máscara da
matéria.
O universo que
ressurge,
no tocar da
tecla ou da corda.
O que transparece
no correr do pincel.
Uma nota vibrando
sobre o silêncio
profundo.
Um pássaro voando
do outro lado
do mundo,
num voo além
do céu.
Quem trabalha
a arte é como
o cocheiro que
conduz a carruagem
por detrás da bruma,
que vela as
aparências sensíveis
da paisagem.
É como quem
navega pelos subterfúgios
das ondas.
É como quem se entrega
pelos corredores
subliminares
da mensagem.
Não daquela
que subjuga o homem
ou o condena
pela interface da miragem.
Mas por aquela
subjetiva,
que conhece os dados
estruturais da
organização do
universo e
dos seus sistemas
matemáticos e
gramaticais da
sua mais profunda
linguagem.

sábado, 1 de outubro de 2011

IMORTALIDADE

Um dia Adameve El Salem subiu uma montanha para meditar. Começou a perguntar: "Quem sou eu?"
Seria eu aquela pessoa que gosta de doce de mamão, com uns cravinhos por cima? Mas esse era o doce que mamãe dizia que era bom!
Se mamãe dissesse que bom era doce de marmelo, com certeza eu gostaria de doce de marmelo!
O tipo de mulher que me chama a atenção? Quando eu era pequenino, meu pai me falava "você vai se casar com uma..." E se meu pai tivesse me falado que fosse um outro tipo de mulher, não seria este o tipo que me chamaria a atenção?`
Por que gosto de poesia? Filosofia? Música cigana?"
Assim ele foi garimpando, garimpando seu interior. Percebeu que era fruto de uma aldeia materna, de uma cultura, etc. Compreendeu que todos os seus pensamentos, sentimentos, emoções, desejos, escolhas eram derivados de sua cultura em geral, do meio em que viveu e do impacto com todas as ideias do mundo.
Mas quem era ele? Ele, puramente ele?
Nos vãos de cada pensamento, sentimento, emoção, desejo, escolha, etc. encontrou um ser permanente, puro como o diamante. Um ser contínuo. Um quantum de energia sem mistura alguma. Sem nenhum contato.
Chegou a conclusão de que ele era eterno. Ele era filho do reflexo do UNO, do ETERNO, Daquele que não tem nome, de RASHEM. Do alto daquela montanha ele rendeu glória a ADONAI ELOHÊNU!

sábado, 3 de setembro de 2011

FANTÁSTICO!



Adameve El Salem encontrando-se numa primavera com o sábio Ammar Al Ammar, num bate papo, enquanto tomavam um cafezinho, perguntou-lhe: "Onde está o fantástico?"
Al Ammar, com sua voz mansa e tranquila respondeu-lhe: "Aqui! Agora! Neste momento permanente! Dizem as tradições, que três sujeitos sairam de Atenas e foram até Éfeso para conhecer Heráclito, o grande filósofo. Levaram meses, naqueles tempos.
Heráclito recebeu os três andarilhos, levou-os para a cozinha de sua casa. Preparou-lhes uma refeição e um bom vinho e convidou-os para sentar-se diante da lareira. Assim permaneceu quieto, enquanto os três se alimentavam. Continuou em silêncio.
Os três disseram-lhe que vieram de tão longe para conhecer o fantástico. Saber do que há mais fenomênico pela sabedoria de Heráclito. Este retrucou-lhe: O fantástico está aqui diante de nós, diante da lareira!
Pois bem, tudo é maravilhoso. Tudo é belo. É inusitada cada rua. Uma diferente da outra. Cada árvore, cada galho desta árvore e cada folha. Tudo é diferente um do outro. A mesma rua vista da mesma janela é outra rua, quando seus olhos distinguem que a cada momento há uma transformação no mundo. Nem a janela será a mesma!
Nós são somos os mesmos a cada minuto que passa. Vamos renovando. Micromilímetros e milionésimas partezinhas vão se transformando dentro de nós a cada segundo. Somos sempre diferentes.
O fantástico está aqui. Neste agora. Entre nós e diante do universo!"

domingo, 28 de agosto de 2011

O CAMINHO DO BOM SENSO



Muitas vezes cometemos sérios erros, porque não sabemos parar. O que significa refletir? Não seria o mesmo que analisar-se? Voltar seu pensamento sobre si e esmiuçá-lo, para evitar erros repetidos? Pois bem, a reflexão é a arte de pensar o que pensa o pensamento. Se é uma capacidade filosófica, não significa que seja apenas para pessoas especiais, filósofos ou iniciados.
O Eterno dá possibilidade para que todo ser humano pratique a reflexão.
Mas não é fácil, não é? Quantas vezes erramos e muitas vezes repetimos nossos erros.
Uma maneira muito simples, é parar. Parar, contar até sete e pensar, antes de decidir, de abrir a boca para responder algo. Este seria o verdadeiro sentido de premeditar. Esta palavra, como muitas outras, se desgastaram e perderam o brilho do seu verdadeiro valor.
Premeditar, seria meditar antes de tomar decisões que poderiam alcançar rumos descontrolados em nossa existência.
Repito: é muito simples. Diante de qualquer situação confusa, inspire profundamente, por exemplo contando até sete; retenha a respiração contando até três e expire lentamente contando até sete. Bom seria que fosse uma respiração diafragmática, o que se aprende com qualquer professor de yoga.
Faça isto sete vezes e depois verá que com certeza terá uma resposta mais sábia para uma decisão conflitante.
Outro exercício também muito interessante para ser realizado à noite, antes de dormirmos: fazermos uma relembrança de todo o nosso dia, desde a hora que levantamos até a hora em que nos deitamos. Um resumo rápido. Deter-se nos pontos mais importantes e trabalhá-los meditando sobre eles.

sábado, 13 de agosto de 2011

RETRATO

Do meu livro "Retalhos de poesias"

Quem viu aquele
retrato?
Aquele sobre a
mesa do centro?
Alguém viu?
Não? Não viu
ninguém?
Cada pessoa fotograda.
Cada uma sorrindo.
Cada qual mais
encostada.
Umas por fora,
outras por dentro.
A família se reunindo.
Naquele retrato o
que mais importava?
Aqueles rostos
sorridentes?
A camisa bem passadinha
ou a saia plissadinha?
Somente as cinzas.
As cinzas semelhantes
aos cabelos grisalhos.
As cinzas que não
são terra nem realidade.
O que importava naquele
retrato,
estava na sua alteridade.
Moldura feita de cinzas.
Último pedido do
velho ao lado.

sábado, 23 de julho de 2011

NINFA RESSURGE NA AVENIDA

NINFA RESSURGE NA AVENIDA

José Luiz Teixeira do Amaral

Ela sai com os cabelos soltos ao vento,
como os cachos das espigas de milho
balançam suas toucas reluzentes ao
frescor da brisa que se acordou mais cedo,
e destrançada e leve, desliza suave
como os lábios dos amantes se entrecruzam
nos átrios mais abundantes dos mistérios
e dos desejos que florescem à superfície
da pele, assim como as ramas se reorganizam
na textura das pedras e alcançam acima de
suas profundidades as alturas preponderantes;
ela que leva em sua simplicidade o perfume
do paraiso celeste, pois busca no mais
profundo da natureza a verdade de sua veste,
ela que chega junto com a luz solar e presenteia
os que passam com seu sorriso de pluma e sua
elegância de ninfa, num andar que desliza
sob a prancha da avenida e afaga seu movimento
inquieto com seu sabor de fada e se de qualquer
maneira vestida, ela é bela e toda a maravilha
do mundo está nela contida como conchas de estrelas.
Ela é assim mesmo tão linda, porque é singela;
um só homem basta para ver tanta beleza, desde
que este homem seja poeta ou tenha os olhos no
percalço dos caminhos floridos dos bosques sem
que lhe imponha a vontade, sem que lhe domine o desejo,
basta que a noite lhe abra uma cortina de surpresas
ou quem sabe a madrugada lhe levite sobre a bruma
e o eleve acima de seus momentos mais inusitados,
pois ela sai assim com os cabelos soltos
e ninguém tem o direito de fechar as portas do
sentimento e nem colocar pedágios nas vias da intuição
do cantador presente, do inspirado bardo que capta
as fagulhas que sobressaem dos relampejos mais importantes,
que se descortinam naqueles instantes onde nem mesmo
os que vivem sonambolizados entre o aparente e o que
gira todos os movimentos mais silenciosos do universo.
É assim mesmo que ela sai, ela não penteia seus cabelos
e no entanto ela é mais bela que todo o bailar dos tangos
e vai além das palavras mais sublimes que emolduram os versos,
assim dirão os que são sensiveis, que em certa rua, em
certo dia, passou certo alguém que brilhou por fora
os muros, iluminou as árvores sem primavera, trouxe os
frutos fora do outono, encantou a todos que boquiabertos
passaram o resto do dia a sorrir, amar e a perdoar todos
os males que outros os fizeram, porque ela caminhou assim desfeita,
e ela se foi assim perfeita, assim tão linda, assim tão bela,
ela se foi, porque assim tudo se vai, tudo se esvai, tudo se
escorrega entre os dedos das mãos, como se despojam os carinhos,
como se diluem os momentos que se sucedem aos momentos que se
sucedem aos momentos, e assim despenteada ela reconfigurou com
arte o que estava fora do lugar, o que necessitava ressurgir,
e provou com sua candura que os girassóis nascem por toda a parte.

terça-feira, 19 de julho de 2011

ANJO GABRIEL ANUNCIA CRIANÇA EM SÃO PAULO

Do meu livro LEMBRANÇAS DE OUTONO

Os dois amigos jogavam sinuca no bar. Sinucão! Você sabe o que é isto? Não são aquelas sinuquinhas de meia sola dos barzinhos de esquina. É grandona mesmo. Remanescente do tempo do tango de Gardel.
Beliscam uns salgadinhos e tomam suas cervejinhas. Sempre aos domingos à tarde.
Aproxima-se deles um jovem: "Boa tarde!"
"Boa tarde!" Respondem os dois. "Você quer jogar um pouco de sinuca com a gente?"
"Não, nem pensar! Não jogo, não bebo, não fumo!"
"Qualé rapaz, então o que você veio fazer aqui?"
"Eu vim anunciar?" "Anunciar, anunciar o quê?"
"Vim anunciar que a Sônia está grávida recentemente e vai ganhar um menino!"
"Você é algum anjo por acaso? Parece que conheço esta estória!"
"Sim, sou o anjo Gabriel!"
"Olhe aqui, seu Gabrí, cadê suas asas? Anjos tem asas! Até que você é louro igual a anjo, mas cadê?"
"Elas estão aqui debaixo de minha capa! Dê uma olhada!"
"Nossa Carlinhos! Não é que o cara é mesmo o Anjo Gabriel! Ou nós estamos bêbados?"
"Sou o anjo Gabriel sim, José e vim anunciar que sua noiva Soninha está grávida!"
"Meu Deus, não esperava por esta notícia, não estou preparado para isto!"
"Pois bem, José e este garoto é fora de série. Ele vai ensinar muitas coisas boas para a humanidade. Vai mostrar que jogar demais e beber demais, deixando a família em casa não é uma coisa certa!"
"Mais uma que eu não esperava. O meu filho vai atrapalhar a minha própria vida?"
"Já que você não esperava por tudo isto, não precisa se desesperar não. O filho não é seu. É de um colega de serviço de Soninha! Adeus José!"

UM CRIME PSICOLÓGICO

Do meu livro LEMBRANÇAS DO OUTONO

O corpo estava estendido sobre a calçada do velho casarão. Outrora depósito de café do ex-IBC. Por ironia do destino o extinto se chamava IRANILDO BENEDITO COSTA.
Coincidência? Sincronia? Este não é o momento para se discutir metafísica ou Jung.
Talvez Kafka poderia entrar derrapando pela beira do conto.
A faca periciada penetrou-lhe na altura do intestino e atingiu-lhe também o fígado. Cena dramática. Carros de polícia rondam por todos os lados.
À frente um posto de gasolina. Movimento intenso. Combustivel caro. Vida barata demais.
Do outro lado uma loja de amortecedores. Ironia do destino de novo? Talvez, para quem observa aquele minúsculo homenzinho (perdoem-me o exagero na explicação), sentado com olhar em êxtase e nas mãos um pedaço do paletó do morto!
"Ah! Não!" Suspira o sargento, enquanto o empacota na algema.
"Ah! Não?" Foi exatamente esta expressão a causa mortis de Iranildo, quando viu-se frente a frente com aquele inesperado homenzinho.
Se tamanha foi a sua surpresa, não pode oferecer o mesmo à sua filhinha de oito anos, em seu aniversário. Seu sonho: uma festa para crianças sendo servida por um garçom anão!
O complexo do pequenino homem falou mais alto que a santa intenção de Iranildo.

ET E OVNI INVADEM METRÓPOLE

Do meu livro LEMBRANÇAS DO OUTONO

Marcos colocou o filme para rodar. Sábado à tarde. Quente como nunca. Invasão de extraterrestres! Já havia prometido à sua amada que passaria na próxima oportunidade ou na última que tivesse.
Joana se espicha. Apanha uns biscoitos na mesinha do centro. Puxa um pouco a cortina. O sol não está brincando de bonzinho.
"Marcão, você acredita em ET'S?" "Claro, imagina este universo com bilhões de galáxias, trilhões de anos luzes seus não dariam para chegar nem no fundo da casa de sua via láctea!"
"Mas quem vai viver tanto tempo assim, para chegar até aqui Marcão?"
"Quem? Você fala na linguagem espaço/tempo terrestre. Eu falo em outra velocidade a nivel da energia pensamento! É outra coisa totalmente diferente! Você ainda não percebeu? Eles já estão no meio de nós!"
"Cruzes, não me fale assim que já estou morrendo de medo. Não consigo nem engolir este biscoitinho! Mas... você já viu Marcão, a cara do 601. Ele mudou para cá junto com a gente. Ele tem uma cara esquisita. Parece ET. E quer saber de uma coisa. Ele parece com você. Tem hora que você tá estranho!"
O filme vai rodando.
"Marcão, olha as orelhas dele! São meio pontudas iguais as suas!" "Joana e daí? Com os meus cabelos compridos consigo disfarçá-las numa boa. Até hoje ninguém notou nada diferente em mim!"
"É? Você viu as unhas dele?" "Eu sei Joana. Mas eu corto minhas unhas todo final de semana, de modo que elas não se entortam. É assim mesmo. Uma questão de se adaptar. Não tem nada de anormal!"
"Mas as sobrancelhas deles parecem de plástico, iguais as suas!"
"Joana, eu não lhe disse do acidente e que fiz plástica!"
Um clarão se abre no aparelho de televisão e invade toda a sala. Uma nave se posiciona no fundo da tela em 3D. Dois focos se estendem a Joana e Marcos sugando-os.
Joana, sim. Marcos? Que Marcos! XY 4386!
Se até os brutos também amam, por que não os ET'S?

LADRÃO QUE NUNCA FOI LADRÃO

Extraido do meu livro LEMBRANÇAS DO OUTONO

Raul saiu apressadamente da padaria com um embrulho de pão e outro de leite. Rápido como um The Flash querendo superar o Eclesiastes ao ultrapassar o vento. Entrou rapidamente no carro verde-oliva, novinho em folha, cheirando capim gordura de manhã na beira do barranco.
O celular no banco do carona toca. Atende: "Vagabundo, ladrão safado, você vai ter comigo! Entrou numa fria meu!"
Não entende nada do que está passando. Acelera. Atravessa o deserto do sinai do sinal vermelho, enquanto o trânsito parece embrenhado em algas marinhas. Lembranças.... A praia? Só daqui a duas semanas. O celular de novo: "Pensa que vai me enganar? É ruim, einh? Já estou no teu encalço!".
Raul olha pelo retrovisor. Percebe um carro em vai e vem, cruzando e costurando o que for de brecha no meio daquela muvuca. Marca de zorro somada com buzina.
Não entende nada. Acelera mais e mais. Precisa escapar daquela incompreensivel perseguição.
Resolve voltar pelo quarteirão. Dobra a direita. Fura o sinal. Os caras atrás. O primeiro tiro quebra o vidro traseiro.
O segundo tiro acerta-lhe o ombro direito. O celular toca de novo. Não dá para atender. Vai na mesma marcha. Quarta direto.
A padaria aparece na frente. Percebe seu carro verde-oliva perto da banca de revistas. O vendedor da concessionária falara que era o único! Único? Foi só argumento de venda!
Joga-se para cima de seu carro. Colidi brutalmente. Uma bala atravessa-lhe a cabeça.
Já não se pode mais fazer poemas como Garcia Lorca, neste mundo também maluco. "Verde que te quiero verde?" Mas quem sabe....."verde carne, pelo verde, soñando en la mar amarga."
Garcia Lorca com seu poema ROMANCE SONÂMBULO e este conto que bem poderia chamar-se: LA MUERTE SONÂMBULA!